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Peša

Às vezes eu não me escuto, não me vejo, não me recordo de quem eu era, e ainda sou. Eu mesma. Ontem eu era pequena, escondida debaixo dos sonhos que eu criei sem a permissão da minha cabeça. Que, apesar de saber que não é por aí, não é bem assim, não é desse jeito que se faz, me permite guardar essas memórias falsas, de momentos que eu nunca vivi. E nem viverei, eu sei.

Eu invento uma realidade que eu sei ser descabida para o meu perfil.

Dou prioridade à personagem de uma artista que não fui eu que escalei pro elenco. Que pessoa é essa no meu roteiro? A minha participação nas minhas histórias não condiz com o script que eu tenho em mãos. Quem falou que essa sou eu? Ops, a mocinha? Eu não sou mocinha, nem bandida, eu não sei, não, não sei. Eu sou aquele tipo de figura que aparece às vezes, de relance. Confunde o espectador, intriga a platéia - "tsc, tsc, isso não é nada bom..." Coerência, por favor, cadê? Descobri: eu não sou atriz principal. Meu desempenho valeu a coadjuvante. Uma das. Eu atuo mal? Tenho talento! Falta empenho, eu sei, talvez. Com certeza. Inspiração... Transpiração... Ensaio eu dispenso. Vai dar tudo certo, eu decorei essas falas que eu nunca li, está tudo em mim. Merda! Luz, câmera, ação. Oxalá que, com o abrir dessas cortinas, eu faça o meu melhor. Eu sei, nasci sabendo. É só eu ser eu mesma. Eu dirijo a minha peça.

As peças que a vida prega...

Sexta-feira, Agosto 05, 2005